Dra. Marina LeonardoTireoide · Pescoço

Guia completo · Garganta, laringe e voz

Câncer de garganta e laringe: sintomas e tratamento

O câncer de garganta nasce nas estruturas por onde passam o ar, a voz e a comida. Ele costuma avisar com sinais que duram semanas, como voz rouca, dor ao engolir ou um caroço no pescoço. Quanto mais cedo é descoberto, maior a chance de um tratamento que preserve a voz e a deglutição (o ato de engolir).

O que é o câncer de garganta?

"Garganta" é o nome popular para duas regiões diferentes:

  • Faringe: o tubo que vai de trás do nariz até o começo do esôfago. Ela tem três partes: a nasofaringe (atrás do nariz), a orofaringe (amígdalas, base da língua e palato mole, a parte de trás do céu da boca) e a hipofaringe (a parte mais baixa, perto do esôfago).
  • Laringe: o órgão da voz, onde ficam as cordas vocais. Ela também protege as vias aéreas na hora de engolir.

A maioria desses tumores é do tipo carcinoma espinocelular, que nasce no revestimento interno da garganta. O local exato muda os sintomas, o tratamento e as chances de cura. Por isso, o diagnóstico precisa ser bem detalhado. O câncer de laringe tem um texto próprio.

Quais são as causas e os fatores de risco?

Os principais fatores de risco são:

  • Cigarro e outras formas de tabaco: o fator mais importante, principalmente para a laringe e a hipofaringe.
  • Álcool: aumenta o risco, e a combinação com cigarro multiplica esse efeito.
  • HPV (papilomavírus humano): vírus transmitido pelo contato íntimo, ligado principalmente aos tumores da orofaringe, como amígdalas e base da língua.
  • Vírus Epstein-Barr: relacionado ao câncer de nasofaringe, mais comum em algumas regiões da Ásia.

O câncer de garganta ligado ao HPV costuma aparecer em pessoas mais jovens, muitas vezes sem histórico de cigarro. Entenda essa relação em HPV e câncer de garganta e veja o papel da prevenção em vacina de HPV e câncer de garganta.

Já os tumores ligados ao tabaco e ao álcool são mais comuns em homens acima dos 50 anos. Saiba mais em cigarro, álcool e câncer de boca e garganta.

Dá para prevenir?

Boa parte dos casos pode ser evitada. As medidas com mais impacto são:

  • não fumar ou parar de fumar, em qualquer idade;
  • reduzir o consumo de álcool;
  • vacinar meninas e meninos contra o HPV, conforme o calendário do SUS;
  • procurar avaliação cedo diante de sintomas que não passam.

Quer tirar essa dúvida com uma especialista?

Agende uma avaliação com cirurgiã de cabeça e pescoço. Quando indicado, o ultrassom é feito na consulta.

Quais são os sintomas do câncer de garganta?

Os sintomas dependem do local do tumor:

Local Sintomas mais comuns
Cordas vocais (laringe) Rouquidão que não passa, muitas vezes desde o início
Orofaringe (amígdalas e base da língua) Dor de garganta de um lado, dor no ouvido, caroço no pescoço
Hipofaringe Dificuldade para engolir, sensação de algo parado, perda de peso
Nasofaringe Nariz entupido de um lado, sangramento nasal, ouvido tampado

Outros sinais que merecem atenção:

  • falta de ar ou ruído ao respirar;
  • tosse persistente, às vezes com sangue;
  • mau hálito persistente;
  • perda de peso sem motivo.

Um ponto importante: nos tumores das cordas vocais, a rouquidão aparece cedo. Isso ajuda no diagnóstico precoce. Por isso, rouquidão que dura mais de 3 semanas deve ser examinada. Leia rouquidão que não passa e dor de garganta de um lado só. O panorama completo está em câncer de garganta: sintomas que merecem atenção.

Como é feito o diagnóstico?

O primeiro passo é o exame da garganta com uma câmera fina. O mais comum é a nasofibrolaringoscopia, em que um tubo flexível entra pelo nariz e mostra toda a garganta e as cordas vocais. O exame é rápido, feito no consultório com anestésico em spray, e causa um incômodo passageiro.

Se houver uma lesão suspeita, faz-se a biópsia: retirada de um pequeno pedaço para análise. Algumas biópsias são feitas no consultório. Outras precisam de um exame sob anestesia geral, que permite avaliar toda a extensão do tumor.

Nos tumores da orofaringe, a biópsia também verifica se há relação com o HPV. Essa informação muda o prognóstico e pode mudar o tratamento.

Para saber o quanto a doença se estendeu, são usados:

  • tomografia ou ressonância do pescoço;
  • tomografia do tórax, para avaliar os pulmões;
  • PET-CT (exame que mostra áreas de maior atividade no corpo), em casos selecionados.

Manchas brancas nas cordas vocais também são investigadas com biópsia. Veja em leucoplasia de laringe.

Como é o tratamento do câncer de garganta?

O tratamento é decidido por uma equipe multidisciplinar: cirurgião de cabeça e pescoço, oncologista clínico, radio-oncologista, fonoaudiólogo, nutricionista, dentista e psicólogo. A escolha considera o local, o tamanho, a relação com o HPV, a saúde geral e as preferências da pessoa.

Tumores iniciais

Nos tumores pequenos, principalmente das cordas vocais, costuma haver duas opções com resultados semelhantes:

  • cirurgia pela boca, com laser ou instrumentos delicados, sem cortes no pescoço;
  • radioterapia, feita em sessões diárias por algumas semanas.

A decisão leva em conta a voz, a disponibilidade de cada tratamento e o que faz mais sentido para a pessoa.

Tumores avançados

Nos tumores maiores, o tratamento costuma combinar mais de um método. As opções incluem:

  • Radioterapia com quimioterapia, que muitas vezes permite preservar a laringe.
  • Cirurgia seguida de radioterapia, com ou sem quimioterapia.
  • Laringectomia total, a retirada de toda a laringe, quando o tumor é muito extenso ou volta após a radioterapia. Entenda em laringectomia: o que é e como fica a voz.

Nos tumores da orofaringe ligados ao HPV, a radioterapia com ou sem quimioterapia é usada com frequência. A cirurgia pela boca, às vezes com auxílio de robô, é uma alternativa em casos selecionados.

Como é a cirurgia, passo a passo?

  1. A cirurgia é feita com anestesia geral.
  2. Tumores pequenos são retirados por dentro da boca, com um aparelho que abre e ilumina a garganta.
  3. Tumores maiores exigem acesso pelo pescoço, com retirada de parte ou de toda a laringe ou faringe.
  4. Muitas vezes, os linfonodos do pescoço também são retirados, no esvaziamento cervical.
  5. Após a laringectomia total, a respiração passa a ser feita por uma abertura definitiva no pescoço, o traqueostoma. Veja o guia de traqueostomia.

Quais são os riscos?

Os riscos dependem do tipo de tratamento:

  • Cirurgia: sangramento, infecção, mudanças na voz e na deglutição, e às vezes uma fístula (vazamento de saliva pela pele), que costuma fechar com cuidados.
  • Radioterapia: boca seca, feridas na boca e na garganta, perda do paladar, dificuldade para engolir e pele do pescoço mais dura.
  • Quimioterapia: cansaço, enjoo, queda da imunidade e alterações na audição ou nos rins, conforme o remédio usado.

Muitos desses efeitos são temporários e diminuem semanas a meses depois do fim do tratamento. Outros, como a boca seca, podem ser duradouros e pedem cuidados contínuos.

Antes da radioterapia, uma avaliação odontológica prepara os dentes e reduz complicações nos ossos da mandíbula.

Como é a recuperação e o acompanhamento?

A reabilitação começa cedo. A fonoaudiologia trabalha a voz e a deglutição. Em alguns momentos, a alimentação pode precisar de uma sonda temporária.

Após a laringectomia total, existem três formas principais de voltar a falar:

  • prótese traqueoesofágica, uma pequena válvula colocada entre a traqueia e o esôfago;
  • voz esofágica, aprendida com treino;
  • laringe eletrônica, um aparelho encostado no pescoço.

Durante a radioterapia, é comum ir ao serviço todos os dias úteis por algumas semanas. Cada sessão dura poucos minutos, e a pessoa usa uma máscara feita sob medida para manter a cabeça na mesma posição. Beber água, cuidar da higiene da boca e manter o peso ajudam a atravessar essa fase.

O acompanhamento inclui consultas frequentes nos primeiros anos, com exame da garganta e exames de imagem. Após radioterapia no pescoço, a tireoide também é monitorada. Parar de fumar reduz o risco de um novo tumor. Veja as perspectivas em câncer de garganta tem cura?.

Quando procurar um médico?

Procure avaliação se você tiver:

  • rouquidão que dura mais de 3 semanas;
  • dor de garganta persistente, principalmente de um lado só;
  • dificuldade ou dor para engolir;
  • dor de ouvido sem problema no ouvido;
  • caroço no pescoço que não diminui;
  • falta de ar ou ruído ao respirar.

O otorrinolaringologista e o cirurgião ou a cirurgiã de cabeça e pescoço são os especialistas que examinam a garganta com câmera e conduzem o diagnóstico. O tratamento envolve a equipe de oncologia. Cada caso é avaliado individualmente, e este texto não substitui a consulta.

Em resumo

  • O câncer de garganta pode surgir na faringe ou na laringe.
  • Rouquidão persistente, dor para engolir e caroço no pescoço são os sinais mais comuns.
  • Cigarro, álcool e HPV são os principais fatores de risco.
  • O diagnóstico é feito com câmera fina e biópsia.
  • Há opções de cirurgia, radioterapia e quimioterapia, escolhidas em equipe.

Perguntas frequentes

Refluxo pode virar câncer de garganta?

O refluxo causa irritação e rouquidão, mas não é considerado uma causa principal do câncer de garganta. Os fatores de risco mais fortes são cigarro, álcool e HPV. Rouquidão persistente deve ser examinada, qualquer que seja a suspeita.

Câncer de garganta por HPV é transmitido pelo sexo oral?

O HPV ligado ao câncer de garganta é transmitido principalmente pelo contato íntimo, incluindo o sexo oral. A maioria das pessoas elimina o vírus sozinha, e só uma pequena parte desenvolve câncer anos depois. A vacina reduz o risco de infecção pelos tipos mais perigosos.

Quem tira a laringe consegue falar?

Sim, existem formas de voltar a falar. As principais são a prótese traqueoesofágica, a voz esofágica e a laringe eletrônica. A fonoaudiologia orienta qual opção faz mais sentido para cada pessoa.

Câncer de garganta aparece em exame de sangue?

Não. Não existe exame de sangue que diagnostique câncer de garganta. O diagnóstico depende do exame da garganta com câmera e da biópsia.

Dor de garganta frequente pode ser câncer?

Quase sempre, não. Dores de garganta que vêm e vão com resfriados costumam ser infecções. O sinal de alerta é a dor que persiste por semanas, principalmente de um lado só, com dor no ouvido ou caroço no pescoço.

A radioterapia no pescoço tem efeitos a longo prazo?

Pode ter. Boca seca, alteração do paladar, dificuldade para engolir e endurecimento da pele do pescoço são os mais comuns. A radioterapia também pode reduzir o funcionamento da tireoide, que por isso é acompanhada com exames de sangue.

Quem fuma deve fazer exame de rotina na garganta?

Não existe um exame de rastreamento recomendado para todas as pessoas que fumam. O que se recomenda é parar de fumar e procurar avaliação diante de qualquer sintoma persistente, como rouquidão, dor ao engolir ou caroço no pescoço.

Fontes

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA)
  2. Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP)
  3. National Cancer Institute (NCI)
  4. American Cancer Society

Conteúdo informativo, escrito em linguagem simples. Não substitui a consulta: cada caso precisa de avaliação individual. Atualizado em 28 de setembro de 2026.

Dra. Marina LeonardoMédica, cirurgiã de cabeça e pescoço em São Paulo (CRM-SP 212154 · RQE 124374). Formação na Santa Casa de São Paulo, Fellowship em Cirurgia Avançada e membro da SBCCP. Conheça a médica

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