Dra. Marina LeonardoTireoide · Pescoço

Guia completo · Garganta, laringe e voz

Traqueostomia: o que é, indicações, cuidados e retirada

Na traqueostomia, o ar deixa de depender do caminho pela boca, pelo nariz e pela laringe e passa a entrar por um atalho na frente do pescoço. É um recurso para proteger a respiração em momentos difíceis, como uma internação longa ou uma cirurgia grande. Com a causa resolvida, a cânula costuma ser retirada e a abertura fecha.

O que é a traqueostomia?

A traqueia é o tubo que leva o ar da garganta até os pulmões. Ela fica logo abaixo da laringe, onde estão as cordas vocais. Na traqueostomia, o ar passa a entrar direto pela traqueia, sem precisar passar pelo nariz, pela boca e pela laringe.

A cânula pode ser de plástico ou de metal. Algumas têm um balonete, um pequeno balão que se enche dentro da traqueia para vedar a passagem. Outras têm uma cânula interna, que sai para limpeza sem precisar tirar a cânula toda.

Traqueostomia e traqueostoma são a mesma coisa?

Não exatamente. Na traqueostomia, a laringe continua no lugar, e o caminho normal do ar pode ser retomado depois. Já após a laringectomia total, a retirada de toda a laringe, a traqueia é costurada na pele do pescoço. Essa abertura definitiva se chama traqueostoma, e não há mais ligação entre o pulmão e o nariz ou a boca. Entenda em laringectomia: o que é e como fica a voz.

Um resumo das dúvidas mais frequentes está em traqueostomia: o que é, cuidados e dúvidas.

Quando a traqueostomia é indicada?

As situações mais comuns são:

  • Necessidade de aparelho para respirar por muito tempo: em pessoas internadas em UTI (unidade de terapia intensiva), a traqueostomia pode substituir o tubo da boca.
  • Obstrução da passagem de ar: por tumores da laringe ou da garganta, inchaço grave, traumas ou paralisia das duas cordas vocais.
  • Grandes cirurgias da boca, da garganta ou do pescoço: a traqueostomia temporária protege a respiração enquanto o inchaço diminui.
  • Dificuldade para eliminar secreções: em pessoas com tosse fraca ou que se engasgam com frequência.

Tumores que bloqueiam a passagem de ar são explicados em câncer de laringe e no guia de câncer de garganta e laringe. Nas cirurgias grandes da boca, veja o guia de câncer de boca.

Existe alternativa à traqueostomia?

Depende da causa. Por períodos curtos, a intubação, com um tubo que passa pela boca, pode ser suficiente. Em algumas obstruções, tratar a causa diretamente, por exemplo retirando parte de um tumor pela boca, evita a traqueostomia ou adia a necessidade dela. Quando a ajuda para respirar vai ser longa, a traqueostomia costuma ser mais confortável e segura que o tubo pela boca. A decisão é tomada pela equipe junto com o paciente ou a família.

Quer tirar essa dúvida com uma especialista?

Agende uma avaliação com cirurgiã de cabeça e pescoço. Quando indicado, o ultrassom é feito na consulta.

Quais sinais mostram que a respiração está comprometida?

A traqueostomia costuma ser discutida quando há sinais de que o ar não passa bem pela garganta:

  • falta de ar que piora com o tempo;
  • ruído agudo ao respirar, chamado estridor;
  • rouquidão com dificuldade para respirar;
  • dificuldade para engolir a própria saliva;
  • engasgos frequentes, com risco de pneumonia.

Rouquidão que não passa pode ser o primeiro sinal de uma doença na laringe. Veja rouquidão que não passa e dificuldade para engolir.

Como é feita a traqueostomia?

Antes do procedimento, a equipe avalia a causa do problema. Em pessoas acordadas, a nasofibrolaringoscopia (exame com uma câmera fina que entra pelo nariz) mostra a garganta e as cordas vocais. A tomografia ajuda a ver tumores e a posição da traqueia.

Existem duas formas principais:

  • Traqueostomia cirúrgica (aberta): feita no centro cirúrgico, com um corte pequeno no pescoço.
  • Traqueostomia percutânea: feita muitas vezes na própria UTI, com agulha e dilatadores, em pessoas selecionadas.

Passo a passo da traqueostomia cirúrgica

  1. A anestesia pode ser geral ou local, conforme a situação.
  2. O pescoço é posicionado esticado para trás.
  3. É feito um corte horizontal pequeno, abaixo do pomo de adão.
  4. Os músculos são afastados, e a tireoide é afastada ou dividida no meio, quando necessário.
  5. A traqueia é aberta, e a cânula é colocada.
  6. A cânula é presa com pontos e com um cadarço ao redor do pescoço.

Em situações de emergência, quando a pessoa não consegue respirar, pode ser feito um acesso de urgência, mais rápido, que depois é convertido em traqueostomia.

Quais são os riscos?

A traqueostomia é um procedimento frequente, mas tem riscos que a equipe conhece e monitora:

  • Nos primeiros dias: sangramento, infecção, saída da cânula do lugar, entupimento por secreção e ar sob a pele do pescoço.
  • Mais raramente: ar entre o pulmão e a parede do tórax, chamado pneumotórax.
  • Com o passar do tempo: estreitamento da traqueia, formação de tecido extra ao redor da abertura e ligação anormal com o esôfago.

Os cuidados diários da equipe e da família reduzem muito esses problemas.

Como cuidar da traqueostomia no dia a dia?

Os cuidados são ensinados antes da alta, e a família pode aprender todos eles. Materiais, técnica e frequência variam de pessoa para pessoa e seguem sempre a orientação da equipe. Em linhas gerais, os cuidados principais são:

  • lavar bem as mãos antes de mexer na traqueostomia;
  • aspirar a secreção quando necessário, com a técnica ensinada;
  • limpar a cânula interna, quando houver, várias vezes ao dia;
  • trocar o curativo ao redor da cânula e manter a pele seca;
  • trocar o cadarço com cuidado, sempre com outra pessoa segurando a cânula;
  • umidificar o ar, com nebulização ou filtros próprios, porque o ar não passa mais pelo nariz, que aquece e umedece;
  • proteger a abertura no banho e em lugares com poeira;
  • manter por perto uma cânula reserva do mesmo tamanho e uma menor, conforme a indicação da equipe.

Como falar e comer com traqueostomia?

A fala depende do tipo de cânula e da condição da laringe. Quando o ar sai todo pela cânula, ele não passa pelas cordas vocais, e a voz não sai. Com o balonete vazio e orientação da equipe, muitas pessoas usam uma válvula de fala. Ela deixa o ar entrar pela cânula e sair pela boca, fazendo as cordas vocais vibrarem. Enquanto isso não é possível, quadros com letras, aplicativos e gestos ajudam na comunicação.

A alimentação também é avaliada pela fonoaudiologia, que verifica se há risco de o alimento ir para o pulmão. Em alguns casos, a pessoa começa com alimentos pastosos e avança aos poucos.

Como é a vida em casa?

Muitas pessoas vão para casa com a traqueostomia e mantêm boa parte da rotina. Alguns pontos ajudam:

  • organizar um cantinho com o material de cuidado, sempre limpo e à mão;
  • evitar ambientes com fumaça, poeira e ar muito seco;
  • usar um protetor de tecido leve sobre a abertura ao sair de casa;
  • combinar com a equipe quem procurar em caso de dúvida ou urgência.

Após grandes cirurgias de câncer, a traqueostomia temporária costuma fazer parte da recuperação. Veja o contexto em reconstrução após cirurgia de cabeça e pescoço e em câncer de garganta: sintomas que merecem atenção.

A equipe de cuidado costuma reunir médico, enfermagem, fonoaudiologia e fisioterapia respiratória.

Como é a retirada da cânula?

A retirada da cânula se chama decanulação. Ela é considerada quando o motivo da traqueostomia foi resolvido e a pessoa respira e tosse bem.

O processo costuma seguir etapas:

  1. A equipe examina a garganta, muitas vezes com câmera, para confirmar que o ar passa bem.
  2. A cânula pode ser trocada por uma menor.
  3. A cânula é tampada por períodos cada vez maiores, para testar a respiração pela boca e pelo nariz.
  4. Se tudo correr bem, a cânula é retirada.
  5. A abertura recebe um curativo e costuma fechar sozinha em dias a poucas semanas.

Se a abertura não fechar, uma pequena cirurgia pode ser necessária. Após a retirada, o acompanhamento verifica se a traqueia não ficou estreitada.

Quando procurar um médico?

Procure atendimento de urgência se a pessoa com traqueostomia tiver:

  • saída da cânula do lugar;
  • falta de ar ou respiração difícil;
  • cânula entupida que não se desobstrui com a aspiração;
  • sangramento vivo pela cânula ou ao redor dela.

Procure a equipe o quanto antes se houver:

  • secreção amarelada ou esverdeada com cheiro forte;
  • febre;
  • pele vermelha, quente ou com pus ao redor da abertura;
  • dificuldade nova para engolir ou engasgos frequentes.

A traqueostomia é acompanhada pelo cirurgião ou pela cirurgiã de cabeça e pescoço, pelo otorrinolaringologista ou pela equipe da UTI, conforme o caso. O pneumologista também pode participar. Cada caso é avaliado individualmente, e este texto não substitui a consulta.

Em resumo

  • A traqueostomia é uma abertura no pescoço até a traqueia, com uma cânula.
  • É indicada para obstrução da passagem de ar, uso prolongado de aparelho ou grandes cirurgias.
  • Na maioria das vezes é temporária, e a abertura fecha após a retirada.
  • Cuidados diários com limpeza, umidificação e aspiração, conforme a equipe, reduzem o risco de complicações.
  • Falar e comer pela boca costumam ser possíveis, com orientação da equipe.

Perguntas frequentes

Quem tem traqueostomia consegue falar?

Muitas pessoas conseguem, dependendo da causa e do tipo de cânula. Com orientação da equipe, é possível usar uma válvula de fala ou tampar a abertura com o dedo por alguns momentos. Após a laringectomia total, a fala usa outros recursos, como a prótese vocal.

Traqueostomia é para sempre?

Na maioria das vezes, não. Ela costuma ser retirada quando o motivo que a indicou se resolve. Em alguns casos, como após a laringectomia total, a abertura no pescoço é definitiva.

Dá para comer pela boca com traqueostomia?

Muitas pessoas conseguem, após avaliação da deglutição pela fonoaudiologia. Em alguns casos, por risco de engasgo, a alimentação é feita por sonda durante um período.

Pode tomar banho com traqueostomia?

Pode, com cuidado para não entrar água pela cânula. Protetores próprios e o chuveiro direcionado abaixo do pescoço ajudam. Nadar e mergulhar costumam ser contraindicados, porque a água entraria direto no pulmão; siga a orientação da equipe.

De quanto em quanto tempo se troca a cânula?

Depende do material, do tipo de cânula e da orientação da equipe. A cânula interna, quando existe, é limpa várias vezes ao dia; a troca da cânula completa segue um cronograma definido pelo médico.

A traqueostomia dói?

O procedimento é feito com anestesia, e nos primeiros dias pode haver desconforto no local, controlado com analgésicos. Depois da cicatrização, a cânula costuma incomodar pouco, embora a tosse e a secreção sejam frequentes no começo.

O buraco da traqueostomia fecha sozinho?

Na maioria das vezes, sim. Depois da retirada da cânula, a abertura costuma fechar em dias a poucas semanas, com um curativo. Quando isso não acontece, pode ser necessária uma pequena cirurgia.

Qual a diferença entre intubação e traqueostomia?

Na intubação, o tubo passa pela boca até a traqueia. Na traqueostomia, ele entra direto pela frente do pescoço. A traqueostomia costuma ser mais confortável quando a pessoa precisa de ajuda para respirar por muito tempo.

Fontes

  1. Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP)
  2. Manual MSD — versão para a família
  3. Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde

Conteúdo informativo, escrito em linguagem simples. Não substitui a consulta: cada caso precisa de avaliação individual. Atualizado em 28 de setembro de 2026.

Dra. Marina LeonardoMédica, cirurgiã de cabeça e pescoço em São Paulo (CRM-SP 212154 · RQE 124374). Formação na Santa Casa de São Paulo, Fellowship em Cirurgia Avançada e membro da SBCCP. Conheça a médica

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