Dra. Marina LeonardoTireoide · Pescoço

Câncer de tireoide

Câncer de tireoide é hereditário? O que a família precisa saber

Na maior parte das famílias, não: o câncer de tireoide hereditário é a exceção, e não a regra. O exemplo mais importante de herança é o carcinoma medular, ligado ao gene RET. Nos tipos papilífero e folicular, que são os mais comuns, o histórico familiar pesa, mas a transmissão direta é bem menos frequente.

O câncer de tireoide hereditário é comum?

Não. A grande maioria dos cânceres de tireoide surge ao acaso, por alterações que acontecem nas células ao longo da vida e não são passadas para os filhos.

Ainda assim, o histórico familiar importa. Ter pais ou irmãos com câncer de tireoide aumenta um pouco a chance de ter a doença. Isso não quer dizer que ela vai aparecer, mas é uma informação útil para o médico.

Quando o carcinoma medular é hereditário?

O carcinoma medular nasce das células C da tireoide. Segundo a American Thyroid Association, cerca de 1 em cada 4 casos é hereditário, causado por alterações no gene RET.

Essas alterações passam de pais para filhos com 50% de chance em cada gestação. Elas podem fazer parte de síndromes chamadas NEM 2 (neoplasia endócrina múltipla tipo 2), que também podem causar:

  • feocromocitoma: um tumor da glândula suprarrenal que produz adrenalina em excesso;
  • hiperparatireoidismo: excesso de funcionamento das paratireoides, que eleva o cálcio no sangue.

Por isso, toda pessoa com carcinoma medular costuma ser orientada a fazer o teste genético do RET, mesmo sem outros casos na família. Saiba mais sobre o carcinoma medular de tireoide.

Quer tirar essa dúvida com uma especialista?

Agende uma avaliação com cirurgiã de cabeça e pescoço. Quando indicado, o ultrassom é feito na consulta.

O que acontece quando um parente tem o gene RET alterado?

Esse é um dos exemplos mais claros de prevenção na medicina. Quando uma pessoa tem a alteração no RET, os parentes de primeiro grau podem fazer o teste genético.

Quem herdou a alteração pode:

  • fazer exames de calcitonina e ultrassom desde cedo;
  • fazer a retirada preventiva da tireoide, antes de o câncer aparecer ou quando ainda é mínimo;
  • investigar feocromocitoma e cálcio alto regularmente.

A idade indicada para a cirurgia preventiva depende de qual alteração do gene a pessoa tem. Em algumas, é recomendada ainda na infância. Quem não herdou a alteração fica livre desse acompanhamento especial.

E os tipos papilífero e folicular, são hereditários?

Em geral, não. Mas há duas situações em que a herança pesa:

  1. Câncer de tireoide familiar não medular: quando três ou mais parentes de primeiro grau têm câncer papilífero ou folicular. Ainda não se conhece um gene responsável na maioria dessas famílias.
  2. Síndromes genéticas raras: algumas aumentam o risco de câncer de tireoide junto com outras doenças.
Síndrome Outras características
Polipose adenomatosa familiar (PAF) Muitos pólipos no intestino
Síndrome de Cowden Lesões de pele, pólipos e risco maior de alguns cânceres, como de mama
Complexo de Carney Manchas na pele e tumores em outras glândulas
Síndrome DICER1 Nódulos de tireoide cedo e tumores raros em pulmão, rins ou ovários

Essas síndromes são raras. O médico suspeita delas quando o histórico pessoal e familiar tem um padrão específico.

Tenho um parente com câncer de tireoide: devo fazer exames?

Depende do tipo de câncer e de quantos parentes foram afetados:

  • Parente com carcinoma medular: converse com o médico sobre o teste genético do RET.
  • Um parente com câncer papilífero: em geral, basta informar o médico e fazer o exame do pescoço nas consultas de rotina.
  • Vários parentes com câncer papilífero ou folicular: o médico pode discutir se o ultrassom da tireoide faz sentido para você.
  • Sinais de síndrome genética: pode ser indicado o aconselhamento genético.

Fazer ultrassom da tireoide em todo mundo, sem critério, pode levar a achados sem importância e a procedimentos desnecessários. Por isso a decisão é individual.

O que é o aconselhamento genético?

É uma consulta com um especialista em genética. Ele avalia o histórico familiar, explica os riscos e indica, quando faz sentido, o teste genético adequado.

O aconselhamento também ajuda a família a entender o resultado e a decidir, com calma, sobre exames e cirurgias preventivas. Outros fatores de risco também contam, como a radiação no pescoço na infância.

Para quem já teve câncer de tireoide, vale anotar os dados principais do diagnóstico: tipo do tumor, idade no diagnóstico e resultado de testes genéticos, se houver. Essas informações ajudam filhos, irmãos e outros parentes nas próprias consultas.

Contar o histórico familiar ao médico é simples e faz diferença. Muitas vezes, é esse detalhe que leva à investigação certa no momento certo.

Quando procurar um médico?

Procure avaliação se:

  • alguém da família teve carcinoma medular de tireoide;
  • três ou mais parentes próximos tiveram câncer de tireoide;
  • você tem um nódulo na tireoide e histórico familiar da doença;
  • na família há casos de feocromocitoma, pólipos intestinais numerosos ou síndromes genéticas conhecidas.

O endocrinologista costuma coordenar a investigação, com apoio do geneticista. O cirurgião ou a cirurgiã de cabeça e pescoço realiza a cirurgia, inclusive a preventiva, quando indicada. Cada caso é avaliado individualmente, e este texto não substitui a consulta.

Em resumo

  • Na maioria das vezes, o câncer de tireoide não é hereditário.
  • No carcinoma medular, cerca de 1 em cada 4 casos é hereditário, ligado ao gene RET.
  • Parentes com o gene alterado podem fazer cirurgia preventiva.
  • Nos tipos papilífero e folicular, a herança é menos comum e aparece em algumas famílias e síndromes.
  • Conte seu histórico familiar ao médico; ele decide se algum exame é necessário.

Perguntas frequentes

Minha mãe teve câncer de tireoide. Eu vou ter também?

Não necessariamente. Ter um parente próximo com câncer de tireoide aumenta um pouco o risco, mas a grande maioria dos filhos nunca terá a doença. Conte esse histórico ao seu médico, que avalia se algum exame faz sentido para você.

Existe exame genético para o câncer papilífero?

Não existe um teste genético de rotina para prever o câncer papilífero na família. Testes genéticos são indicados em situações específicas, como suspeita de síndromes hereditárias, e sempre com orientação de um especialista.

Crianças da família precisam fazer ultrassom da tireoide?

Em geral, não sem indicação. O ultrassom de rotina em crianças sem sintomas não é recomendado para a maioria das famílias. A exceção são famílias com alteração no gene RET ou síndromes específicas, com acompanhamento planejado pela equipe.

O câncer de tireoide hereditário é mais agressivo?

Depende do tipo. No carcinoma medular hereditário, descobrir cedo muda muito o resultado, e a cirurgia preventiva pode evitar a doença. Nos casos familiares de câncer papilífero, algumas pesquisas sugerem comportamento um pouco mais agressivo, mas isso ainda é debatido.

Fontes

  1. American Cancer Society — Thyroid Cancer Risk Factors
  2. American Thyroid Association — Medullary Thyroid Cancer
  3. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Conteúdo informativo, escrito em linguagem simples. Não substitui a consulta: cada caso precisa de avaliação individual. Atualizado em 28 de setembro de 2026.

Dra. Marina LeonardoMédica, cirurgiã de cabeça e pescoço em São Paulo (CRM-SP 212154 · RQE 124374). Formação na Santa Casa de São Paulo, Fellowship em Cirurgia Avançada e membro da SBCCP. Conheça a médica

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