Dra. Marina LeonardoTireoide · Pescoço

Câncer de tireoide

Iodoterapia: o que é e para que serve

Na iodoterapia, a pessoa engole uma dose de iodo radioativo que vai direto para as células da tireoide que sobraram depois da cirurgia, inclusive as do tumor. É um complemento usado em parte dos casos de câncer de tireoide, não em todos. A indicação é discutida em equipe, e o tratamento é aplicado em um serviço de medicina nuclear.

O que é a iodoterapia?

As células da tireoide têm uma característica especial: elas absorvem iodo do sangue para fabricar hormônio. Nenhum outro tecido do corpo faz isso com tanta intensidade.

A iodoterapia aproveita esse comportamento. A pessoa engole uma dose de iodo radioativo, chamado iodo-131. Ele circula pelo corpo e é captado pelas células da tireoide que restaram, inclusive as do tumor que ainda captam iodo.

Lá dentro, a radiação age de perto, destruindo essas células. O que não é captado sai do corpo principalmente pela urina, nos dias seguintes.

Para que serve a iodoterapia?

Ela pode ter três objetivos, conforme o caso:

  • Eliminar restos de tireoide saudável: mesmo após a retirada total, sobra um pouco de tecido. Eliminá-lo facilita o acompanhamento com exames de sangue.
  • Tratamento complementar: destruir células microscópicas do tumor que possam ter ficado, reduzindo o risco de retorno.
  • Tratar doença que persistiu ou voltou: como gânglios ou metástases que captam iodo.

Ela é usada nos cânceres que captam iodo: o papilífero, o folicular e, em parte dos casos, o oncocítico. Não é usada nos tipos medular e anaplásico, porque suas células não captam iodo.

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Quem faz a iodoterapia e quem decide?

Cada profissional tem um papel:

Profissional O que faz
Cirurgião de cabeça e pescoço Retira a tireoide e os gânglios afetados; o laudo da cirurgia ajuda a definir o risco
Endocrinologista Avalia o risco, discute a indicação e cuida dos hormônios antes e depois
Médico nuclear Define a dose, aplica o tratamento, orienta os cuidados de proteção e faz a cintilografia

A indicação é uma decisão em conjunto. A iodoterapia só pode ser feita em serviços de medicina nuclear autorizados.

Todo mundo que opera câncer de tireoide precisa de iodoterapia?

Não. Esse é um ponto importante e que mudou nos últimos anos.

Nos casos de baixo risco, como tumores pequenos, restritos à tireoide e sem gânglios afetados, muitas vezes a iodoterapia não é necessária. Quem fez apenas lobectomia também não costuma fazer.

Ela é mais indicada nos casos de risco intermediário ou alto, como tumores maiores, com gânglios afetados, que saíram da tireoide ou com metástase à distância. Saiba mais sobre o carcinoma papilífero de tireoide.

Como é o preparo para a iodoterapia?

Para funcionar, as células precisam estar "com fome" de iodo. O preparo tem três partes:

  1. TSH alto: o TSH é o hormônio que estimula a captação de iodo. Ele sobe de duas formas: suspendendo a levotiroxina por algumas semanas, o que causa um hipotireoidismo temporário, ou com injeções de TSH produzido em laboratório, sem suspender o remédio.
  2. Dieta pobre em iodo: por cerca de 1 a 2 semanas antes. Veja o guia simples da dieta pobre em iodo.
  3. Outros cuidados: evitar exames com contraste iodado nos meses anteriores e, nas mulheres em idade fértil, fazer teste de gravidez.

A escolha entre suspender o remédio ou usar a injeção é feita pela equipe, conforme o caso e a disponibilidade.

O que é a pesquisa de corpo inteiro?

Alguns dias depois da dose, costuma ser feita uma cintilografia chamada pesquisa de corpo inteiro. Ela mostra onde o iodo foi captado e ajuda a identificar restos da tireoide, gânglios ou metástases.

Depois da iodoterapia, a pessoa volta a tomar a levotiroxina, se tinha suspendido, conforme a orientação da equipe. O cansaço do período de preparo costuma passar aos poucos nas semanas seguintes.

Quais são os efeitos colaterais da iodoterapia?

A maioria das pessoas tolera bem. Os efeitos mais comuns são passageiros:

  • enjoo nos primeiros dias;
  • inchaço ou dor nas glândulas salivares, perto da orelha e embaixo do queixo;
  • boca seca ou alteração do paladar;
  • sensação de pescoço sensível.

Mais raramente, pode haver boca seca prolongada ou alteração do lacrimejamento. Um aumento do risco de outros cânceres no futuro foi descrito em alguns estudos, mas esse risco é considerado baixo. Nas mulheres, a menstruação pode ficar irregular por alguns meses.

Depois da dose, é preciso seguir cuidados de proteção por alguns dias. Veja quantos dias de isolamento a iodoterapia exige.

Quando procurar um médico?

Procure a equipe se, após a iodoterapia:

  • o inchaço das glândulas salivares não passar ou vier com febre;
  • houver vômitos que impeçam de beber água;
  • a boca seca persistir por semanas;
  • surgirem dúvidas sobre gravidez, amamentação ou retorno ao trabalho.

Se você operou um câncer de tireoide e quer saber se precisa de iodoterapia, converse com seu endocrinologista e com o cirurgião de cabeça e pescoço. O médico nuclear conduz o tratamento. Cada caso é avaliado individualmente, e este texto não substitui a consulta.

Em resumo

  • A iodoterapia usa iodo radioativo, engolido, que é captado pelas células da tireoide.
  • Serve para eliminar restos da glândula e células de tumor que captam iodo.
  • Nem todo caso de câncer de tireoide precisa; os de baixo risco muitas vezes não.
  • O preparo inclui TSH alto e dieta pobre em iodo.
  • É conduzida pelo médico nuclear, em conjunto com o endocrinologista.

Perguntas frequentes

Iodoterapia é a mesma coisa que radioterapia?

Não. Na radioterapia externa, um aparelho direciona raios para uma parte do corpo. Na iodoterapia, a pessoa engole o iodo radioativo, e ele é captado de forma seletiva pelas células da tireoide, agindo de dentro para fora.

A iodoterapia faz cair o cabelo?

Não costuma causar queda de cabelo como a quimioterapia. Algumas pessoas notam cabelo mais fraco no período de preparo, quando ficam temporariamente com hipotireoidismo, mas isso tende a se normalizar com a volta do hormônio.

Quantas vezes é preciso fazer iodoterapia?

Na maioria dos casos, uma vez é suficiente. Novas doses podem ser consideradas se houver doença persistente ou que voltou e que ainda capte iodo. A decisão é tomada com base nos exames de acompanhamento.

A iodoterapia é usada para outras doenças da tireoide?

Sim. Em doses menores, ela também é usada no hipertireoidismo, como na doença de Graves e em nódulos que produzem hormônio em excesso. O preparo e os cuidados são diferentes dos usados no câncer.

Quem teve alergia a contraste pode fazer iodoterapia?

Em geral, sim. A alergia a contraste iodado não é considerada uma alergia ao iodo em si, e a quantidade de iodo na iodoterapia é muito pequena. Mesmo assim, é importante informar a equipe de medicina nuclear sobre qualquer alergia.

Fontes

  1. American Thyroid Association — Radioactive Iodine
  2. American Cancer Society — Radioactive Iodine (Radioiodine) Therapy for Thyroid Cancer
  3. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Conteúdo informativo, escrito em linguagem simples. Não substitui a consulta: cada caso precisa de avaliação individual. Atualizado em 28 de setembro de 2026.

Dra. Marina LeonardoMédica, cirurgiã de cabeça e pescoço em São Paulo (CRM-SP 212154 · RQE 124374). Formação na Santa Casa de São Paulo, Fellowship em Cirurgia Avançada e membro da SBCCP. Conheça a médica

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